<i>Rentrées</i>

Manuel Rodrigues

Depois de tão repetida e ampliada pela comunicação social dominante tornou-se lugar-comum chamar rentrée ao retorno de alguns partidos à actividade política após o estival período de férias. É uma espécie de regresso a uma acção onde o que conta é o show-off interrompido neste período. O problema é que, no seu insistente esforço por mostrar que os partidos (e os políticos) são todos iguais, também inventaram para o PCP uma rentrée que, está-se mesmo a ver, associaram à Festa do Avante!.

Só que o PCP é efectivamente diferente. Tem uma outra concepção e prática políticas que não vão de férias. Que todos os dias se materializam na incessante acção e luta pela emancipação social dos trabalhadores e do povo.

Falar de rentrée do PCP associada à Festa do Avante! é, por exemplo, não enxergar as horas, os dias e os meses de trabalho militante necessários para que a Festa aconteça. E é também não ver, para além da Festa e em ligação a ela, as muitas outras actividades que o PCP desenvolve neste período.

Vem isto a propósito da rentrée política do PSD no passado domingo na Festa do Pontal. Passos Coelho aproveitou a previsível ampliação do seu discurso para desferir duros golpes na solução política actual com um criativo conjunto de ideias já batidas. Apontando o dedo acusador à reversão de algumas das medidas mais gravosas do seu Governo disparou contra esta troika que só sabe fazer o que é fácil (repor feriados, acelerar a retoma de rendimentos, aumentar férias, baixar o IVA da restauração, repor as 35 horas para a função pública). O que é difícil e exige alguma coragem – terá acrescentado - é que eles não fazem que isso só um partido reformista e inconformista como o PSD conseguiria fazer (sempre com a solícita ajuda do CDS, é claro). Em conclusão, a culpa das coisas assim estarem deve-se à reversão de reformas importantes.

E de quem é a culpa? É do povo! – deixou subentendido - que não compreendeu tão abnegado esforço reformador e interrompeu estas e outras reformas tidas por inadiáveis e profundas, como a da Segurança Social. Assim o povo tivesse entendido, como era seu dever, e o País estaria bem melhor…

Só lhe faltou mesmo acrescentar: «se o povo não entende nem aceita, então mude-se o povo!

 



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